CRÔNICA
Começar de novo
Ultimamente ando vivendo um clima meio
Big Brother. Querendo expor minhas fe-
ridas e minhas dores para quem quiser
ver. A superexposição sempre foi uma
característica da minha personalidade. Enquanto a
maioria das pessoas esconde suas fraquezas, suas
dores, suas falhas, sinto-me bem exprimindo sen-
timentos sem nenhum pudor. Talvez por achar que
essa é a melhor maneira de me defender da im-
perfeição humana, inclusive da minha. Essa semana
o tema da minha análise foi “confiança”. Até que
ponto podemos confiar num amigo, num colega de
trabalho, em nossos parentes, nossos pais, nossos
filhos, enfim, até que ponto podemos confiar nas
pessoas que amamos? Concluí que depende da
expectativa. E o que nos leva a ter expectativas
exageradas com as pessoas? Talvez uma grande
necessidade de afeto ou atenção que nos foram
negados lá atrás. Ou, quem sabe, a quantidade que
nos deram não foi suficiente para atender a tanta
demanda.
Quando eu era criança, um fato aparentemente
banal marcou toda a minha vida. No dia em que meu
irmão nasceu e papai foi buscar mamãe no hospital,
ficou combinado que, na volta, ele me pegaria na
casa dos meus avós, onde eu tinha ficado hos-
pedada durante alguns dias. Até hoje me vejo
esperando, sentada na janela da vila onde vovô
morava, toda arrumadinha, vestido bordado da loja
Boneca, arco de renda na cabeça, as pernas ba-
lançando, ansiosas, sobre o parapeito da janela, e
vovô me enlaçando forte nos braços para que eu
não caísse. Meus pais não chegavam nunca até que,
de repente, o velho Chevrolet cinza de papai es-
tacionou na frente da vila e vi seu Mario descendo,
aflito como sempre, me pegando pelos braços,
enquanto explicava para meu avô: “Já estávamos
em casa quando percebemos que tínhamos es-
quecido a Elizabeth e tivemos que voltar”. E lá entrei
eu naquele carro velho, vi mamãe segurando cui-
dadosamente o bebê e, assim, curti os primeiros
momentos desse sentimento de exclusão que me
marcaria por toda a vida. É incrível como uma
palavra, uma frase, um descuido, podem marcar
uma criança para sempre. E, acreditem, por conta
desse episódio, passei a vida correndo atrás de
homens que se doavam só pela metade, amizades
que muitas vezes me deixaram na boca o gosto
amargo da decepção. Não que as pessoas tivessem
nenhuma culpa, é claro que não. Nem tampouco que
eu tenha a famosa síndrome da vítima, nem pensar.
Tenho anos da análise para reconhecer que as
pessoas são o que são, ou o que podem ser. Apenas
a minha expectativa sempre foi demais. Talvez por
conta disso, numa espécie de intuição, há alguns
anos tive a idéia de escrever um livro com um
enredo estranho: a história de uma mulher que um
dia, ao acordar, percebe que perdeu sua memória
afetiva. Ela reconhece marido, filhos, parentes, ami-
gos, mas seu peito está vazio das coisas do sentir.
Profundamente angustiada, recorre a seu fiel diário
e, aos poucos, vai lendo sobre o que sentia por todas
aquelas pessoas. Mas percebe que agora não sente
mais nada, que está oca, completamente oca. Na-
quela época, disse para o meu analista que estava
pensando em finalizar a história com o suicídio da
protagonista, e ele reagiu: “Não, ela não pode
morrer, dá um outro final”.
Fazer análise muitos anos dá nisso. A gente
procura fazer links e mais links do presente com o
passado para justificar o que estamos vivendo. Mas
aprendi com o filósofo Heráclito que não podemos
descer duas vezes o mesmo rio, porque novas águas
correm sempre sobre nós. E, por conta disso, andei
choramingando pela vida ao perceber que não
podemos reviver e, muito menos, transformar o que
já vivemos. Não há como dar um jeitinho, não há
como repetir esses instantes, mágicos ou cruéis,
que vivemos um dia. É o presente, com toda a sua
força, que nos submete impiedosamente e nos
lembra, a cada minuto, que não há resgate pos-
sível.
Na última terça-feira, quando saí da minha sessão
de análise, as lágrimas ainda escorriam dos meus
olhos e, como a heroína do romance que nunca tive
coragem de escrever, percebi que, inconsciente-
mente, tinha colocado um ponto final na história
que, estranhamente, batizei de “Bety não pode
morrer”. Não tinha vontade de pronunciar uma
palavra, queria apenas viver aquele isolamento que
sentia de uma maneira tão intensa e pela primeira
vez. Meu corpo estava moído como o de uma
palmeira castigada pelo vento, e minha mente
estava oca como a heroína derrotada. Mas estava
disposta a recomeçar do zero. Saí andando pela rua
Mem de Sá, peguei o walkman e liguei numa estação
qualquer. E, como uma benção, ouvi os versos do
hino de Ivan Lins e Victor Martins: “Começar de
novo/E contar comigo,/Vai valer a pena/Ter ama-
nhecido./Ter me rebelado,/Ter me debatido./Ter me
machucado,/Ter sobrevivido./Ter virado a me-
sa,/Ter me conhecido./Ter virado o barco,/Ter me
socorrido".
Bom final de semana para todos!
