CONSULTÓRIO SENTIMENTAL
PERGUNTE: Oi, Bety. Tudo bem? Eu tenho 26 anos e o meu problema é o seguinte. Eu nunca fui uma pessoa que tinha objetivos para o futuro, desde meus 12 anos fui assim. Eu passei num vestibulinho para magistério mas não quis fazer o curso. Fiz uma faculdade mas não exerci e tenho uma irmã de 29 anos que, em relação a trabalho, sempre foi decidida. Hoje ela já tem uma casa, um carro e profissão, é professora concursada faz 3 anos. O problema é que eu não tenho força de vontade para correr atrás das coisas...eu entro num projeto e desisto no meio do caminho. Não tenho a vontade q ela tem, sabe. Eu não tenho inveja dela, eu a admiro, mas como eu posso quebrar esse circulo vicioso de começar as coisas e desistir sempre? Parece que as coisas que faço não me preenchem. Agora estou querendo prestar concurso e não mais fazer nenhum curso porque eu não vou usar e estou precisando de dinheiro para comprar minha casa logo. Bj.
RESPOSTA: Bom dia, querida, quando somos jovens temos muitas dúvidas sobre o que queremos ser. Muitas vezes optamos por um caminho e só depois percebemos que não era exatamente o que queríamos fazer. Alguns têm a coragem de recomeçar, outros não. Alguns levam esse sentimento pela vida toda e outros buscam outra história. No seu caso, o que percebo é que talvez o caminho escolhido e como você observa “ parece que as coisas que faço não me preenchem” não seja o que te faça mais feliz. Nem sempre a vida profissional vai nos preencher totalmente. Outros interesses podem fazer parte da nossa vida, como a dança, algum esporte, o teatro, o bordado, costura e tantos outros... Muitas vezes a partir desses interesses é que encontramos um caminho que nos faz feliz. Reflita também sobre o que a leva a desistir dos seus projetos. Será que esses projetos te fazem feliz? Será que seus projetos alcançarão o sucesso que a sua irmã teve? Será que não realizá-los é uma forma inconsciente que você encontra para chamar a atenção e assim “competir” com a sua irmã? Essas são algumas questões que a terapia me ensinou a enxergar e que pode, quem sabe, também ajudá-la a entender suas questões. O que percebo no final da sua carta é que você tem um objetivo: comprar a sua casa. O primeiro passo vc já deu. Agora é arregaçar as mangas e encontrar um meio para que vc possa realizá-lo. Não será fácil mas, tenho certeza, que vc pode conseguir. Conte comigo, se precisar. Carinho, Bety
Escrito por Bety em 25/02/2008
CRÔNICA
Eu, Pompéia e o hífen
Bety Orsini
Tive em certa fase da infância uma amiga de olhos de um azul intenso e nome que eu, talvez influenciada pelos traços suaves de seu rosto, achava que fosse de princesa. Como era o meu, segundo me ensinara minha mãe. Mas Pompéia tinha uma sonoridade infinitamente mais forte do que Elizabeth. E minha amiga parecia ser uma figurinha de contos de fadas.
Um dia - aliás, convivemos por pouco tempo -, Pompéia deixou o mundo mágico em que brincávamos com outras crianças nos quintais de um bairro do Rio, e foi embora com a família para um outro lugar do Brasil. Não demorou muito, vim com meus pais para Niterói. Anos mais tarde, quando acabara de entrar para um jornal, reencontrei Pompéia no Museu de Arte Moderna. Eu, a serviço, como repórter; ela, como visitante.
Não tive a menor dificuldade em reconhecer minha amiguinha: seus cabelos (certamente bem mais claros por força de tinturas) nem tanto, mas os olhos eram, inequivocamente, os mesmos. Ela me falou que gostaria de ser jornalista. Depois, em outros encontros, me mostrou alguns contos - por sinal, ótimos - e de repente, me telefonou dizendo que estava indo para São Paulo. Não nos comunicamos por um longo tempo.
Das vezes em que me lembrei de Pompéia, sua imagem tinha sempre uma aura de boneca inocente. Mesmo depois de tê-la visto, aos 25 anos, com os cabelos pintados e um ousado decote. E de ter aprendido, ainda na pré-adolescência, que Pompéia era nome de uma cidade de origem bárbara, dominada por longo período pelos gregos e retomada pelos romanos, antes de ser banida da face da Terra pelas lavas do vulcão italiano Vesúvio, no ano 79 depois de Cristo.
E mais: na mesma ocasião, na escola, ouvi de uma colega mais avançada que a cidade de Pompéia fora castigada por excesso de "libertinagem e orgias". Ingênua e pura, por um tempo fiquei com certa reserva em relação ao nome. Mas depois, passou. Só não compreendi, até hoje, por que a mãe de minha amiga, uma beata da igreja do bairro onde morávamos, tivera a ousadia de batizá-la com aquele nome. E nem por que o padre concordara.
Bem, há três dias deparei-me com Pompéia saindo no prédio do MAC. Não nos víamos há bem mais de 20 anos. Acreditem: os olhos continuam os mesmos. Ah, mas como o tempo foi implacável com a gente. E, digamos, justo, pois com raríssimas concessões, não escolhe nome, raça, origem e tudo o mais. É duro com todos.
Não temo estar sendo indelicada com minha amiga. Quando nos vimos ainda jovens, percebi que, além de sensível e culta, ela é do tipo realista. Além do mais, sei que não lerá esta crônica, pois me disse que estava de malas prontas para viajar para o interior de São Paulo. Não porque foi lá que conheceu, logo depois de nosso distante encontro no MAM, o grande amor de sua vida, mas simplesmente por gostar das cidades pequenas.
Durante o papo de hora e meia no café do MAC, Pompéia me contou uma história digna do tempo em que eu imaginava que ela viera de um mundo encantado. Casou-se com um chinês que na infância plantava arroz numa vila. Na adolescência, ele trabalhou numa pastelaria em Pequim; e na juventude, em São Paulo, foi burro-sem-rabo (puxador de carroça de transporte de cargas), ajudante de ferreiro, enfim, fez de tudo um pouco.
Um dia, foi convidado para trabalhar na loja de um amigo, também chinês, que o apelidara de Lin Pin. Ele adorava ser chamado assim. Inclusive por Pompéia, que conhecera quando já havia se tornado sócio da loja e juntara dinheiro suficiente para se tornar um empresário independente. Minha amiga deixou de lado o sonho de ser jornalista, os dois foram para a Grécia, depois da troca de regime na China mudaram-se para Pequim e aí, o destino interrompeu a bela história de amor dos dois. Durante uma viagem a uma vila do interior, sacudida por fortes tempestades durante dez dias, Lin Pin morreu de uma complicação pulmonar.
Entre seus projetos, aqui no Brasil, Pompéia agora quer voltar a escrever. Mas, dizendo-se um pouco emperrada esbarrou em algumas dificuldades clássicas do seu, ou melhor, do nosso idioma. Uma delas, com o "chato do hífen", segundo sua definição. Impaciente e confusa, pegou o dicionário e anotou em torno de 200 palavras ligadas pelo "pequeno terrível". Ao mesmo tempo, leu e releu regras e consultou a internet.
Impressionou-se com a quantidade de sites que falam sobre o assunto. E se divertiu com as explicações e comentários. Alguns, já sem graça para quem está no Brasil. Mas para quem, como ela, passou anos no exterior afastada da leitura de jornais, livros e, acima de tudo, concentrando esforços para aprender chinês, um inocente e útil passatempo. Coisas do tipo: "Quando se usa hífen antes de mini? Só no dia de São Nunca"; e "pão duro é pão dormido, mas pão-duro é o avarento".
Entusiasmada como uma estudante que tenta desvendar os segredos da língua portuguesa, Pompéia decidiu aprofundar seus conhecimentos sobre o emprego do hífen, que passou a adorar. Pelos longos intervalos que regem os nossos encontros, acho improvável que eu e ela nos vejamos novamente. Até porque o acaso já foi bastante benevolente com nós duas.
Bem, nada demais viajar nessa fantástica história: quem sabe o minúsculo traço, mestre em unir palavras, possa dar uma mãozinha no sentido de permitir que o destino nos coloque frente a frente de novo? Tomara que o espírito de Lin Pin te proteja, velha amiga Pompéia.
Escrito por Bety em 28/02/2008
RECADO DA BETY
Agora vocês já podem as crônicas que publico todos os sábados no Globo Niterói. Ouvir sim, pois acabo de lançar o audiolivro Crônicas do Coração pelo selo Luz da Cidade. Amei a experiência de escrever crônicas e depois interpretá-las. O audiolivro traz 24 crônicas sobre os mais diversos tipos de amor, todas elas vivenciadas por mim. Nada é mentira, acreditem. E espero que gostem de me ouvir. Se gostarem, podem presentear amigos e parentes também. Duas crônicas me tocam principalmente: a que eu fiz para minha mãe, dona Amélia, batizada por mim de "Tudo sobre minha mãe" e a que fiz para meu pai, que chama-se "Uma tarde com papai". Um ótimo presente para os Dias das Mães e o Dia dos Pais. O audiolivro pode ser comprado na Livraria Unibanco Arteplex (Praia de Botafogo 316), na rede Saraiva, pela internet no endereço www.luzdacidade.com.br ou direto na produtora pelo telefone 2245-2849 com o produtor Paulinho Lima que envia o produto pelo correio. Não tem mistério. Para ouvir o audiolivro é só colocar os cds no rádio do carro, no computador ou no DVD.
Escrito por Bety em 01/03/2008