FRASE
Me ame quando eu menos mereço porque é quando eu mais preciso.
Escrito por Bety em 27/01/2008
CRÔNICA
Reflexão
Bety Orsini
No fim, sereis sempre o que sois... Por mais que os pés sobre altas solas coloqueis... E useis perucas de milhões de anéis... Haveis de ser sempre o que sois. (Goethe, Fausto I, versos 1806-1809)
Recentemente, durante uma entrevista, o psicanalista Luiz Alberto Py afirmou que não existe melhor remédio para a depressão do que a caridade. Desde então, ando pensando muito no significado dessa virtude e, de tanto pensar, concluí que existem duas espécies: a caridade com intenção e a caridade em si mesma. A caridade com intenção é enganosa, são os atos que a maioria de nós fazemos para aliviar nossa culpa de ter mais um pouco, ou muito mais. Distribuímos cestas básicas, oferecemos pratos de comida, damos nossos objetos usados para os que precisam, pagamos remédios, e os que têm mais possibilidades pagam estudos para alguns necessitados e até os ajudam a construir uma morada com o que sobra de seus orçamentos. Percebi, então, que um certo tipo de caridade cheira a esmola e continua fortalecendo o muro invisível que divide os que têm dos que não têm, e que a verdadeira caridade, aquela capaz de mudar o mundo, é a que destrói muros, a que possibilita ao próximo existir à nossa imagem e semelhança. Era esse o tema da conversa que tive com uma grande amiga, no último domingo, quando convidei-a para conhecer a Fortaleza de Santa Cruz. A certo momento da conversa, ela desabafou: "É por isso que eu odeio caridade." Mais adiante, ponderou: "Sei lá, às vezes acho que essas pessoas não têm consciência disso, pensam que estão fazendo alguma coisa. Se não fosse assim, como é que elas se olhariam no espelho?"
Foi, então, que me lembrei da cena que assisti, há duas semanas, no café Batata Doce, no coração da Rua Moreira César, em Icaraí. Passava pouco das cinco horas da tarde de um domingo. Alguns clientes tomavam seu capuccino tranqüilamente, acompanhados com porções de pão-de-queijo, quando, de repente, cinco adolescentes invadiram o café. Como num filme de terror, eles gritavam, arrancavam a comida dos clientes dos pratos, ameaçavam todos, gargalhavam enlouquecidos. A certa altura, duas moças tiraram a roupa toda, ficando completamente nuas, até que uma delas arrancou a garrafa de vidro com uma flor que enfeitava uma das mesas e atirou num cliente apavorado. Algumas pessoas que passavam na rua também foram atacadas. Os cinco adolescentes tinham, no máximo, 18 anos. Levavam nas mãos uma garrafa de plástico cheia de cola e, no coração, a desesperança e muito ódio.
Não era um filme, era a realidade para a qual muitos de nós insistimos em fechar os olhos. Mas o aumento da violência no mundo anda nos obrigando a repensar o sentido da palavra caridade. E também a perceber, cada vez mais, que está tudo errado numa sociedade como a nossa, onde a ordem é ter, acumular, reter; onde pessoas se valorizam e são valorizadas por meio da conta bancária, dos móveis, das roupas, das jóias grifadas, dos carros possantes. E por mais grades que coloquemos em torno de nós, mesmo morando em condomínios vigiados dia e noite, estamos sendo encurralados pelo ódio que não distingue conta bancária ou classe social. Um ódio justo, que nasce da desigualdade, da indiferença e, principalmente, da dor que o outro tem de não existir. Estamos sendo caçados; nossos filhos, nossos amigos, todos os que amamos estão sendo encurralados a cada dia. E não adianta reagir com mais ódio porque o ódio, todos sabemos, é o próprio alimento do ódio. Apenas o amor pelos que nada têm e pelos que nada são pode virar esse jogo. Não se pode ficar alheio a tanto sofrimento quando ele é tanto e está tão perto de nós. Não se pode ignorar a dor de um povo que tem tantos motivos para chorar. Não sou uma pessoa religiosa, guardo apenas no meu coração as coisas que acredito. Que hoje, sábado, possamos derrotar a nossa vaidade e ambição e entender, verdadeiramente, as palavras do apóstolo Paulo: "Ainda que eu falasse as língua dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa, ou como o sino que tine. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria."
PUBLICADA NO GLOBO NITERÓI NO DIA 19 DE JANEIRO DE 2008
Escrito por Bety em 27/01/2008
CONSULTÓRIO SENTIMENTAL
PERGUNTA: Bety, como superar a tristeza de ficar em casa sem poder ir a uma festa superbadalada????
Fabi.
RESPOSTA: Olá Fabi. Algumas vezes perdemos a oportunidade de ir a um lugar que amamos por motivos vários e ficamos tristes. Mas precisamos ficar felizes por saber que existirão novas festas e em alguma delas nós poderemos ir. Escreva novamente se precisar querida. Um beijo, Bety orsini
Escrito por Bety em 27/01/2008