RECADO DA BETY
Agora vocês já podem as crônicas que publico todos os sábados no Globo Niterói. Ouvir sim, pois acabo de lançar o audiolivro Crônicas do Coração pelo selo Luz da Cidade. Amei a experiência de escrever crônicas e depois interpretá-las. O audiolivro traz 24 crônicas sobre os mais diversos tipos de amor, todas elas vivenciadas por mim. Nada é mentira, acreditem. E espero que gostem de me ouvir. Se gostarem, podem presentear amigos e parentes também. Duas crônicas me tocam principalmente: a que eu fiz para minha mãe, dona Amélia, batizada por mim de "Tudo sobre minha mãe" e a que fiz para meu pai, que chama-se "Uma tarde com papai". O audiolivro pode ser comprado na Livraria Unibanco Arteplex (Praia de Botafogo 316), na rede Saraiva ou pela internet no endereço www.luzdacidade.com.br. Não tem mistério. Para ouvir o audiolivro é só colocar os cds no rádio do carro, no computador ou no DVD.
Escrito por Bety em 01/01/2008
CRÔNICA
Ata-me
No domingo anterior ao Natal, fui até a locadora, aluguei alguns filmes e botei no DVD o título que mais me encantou, "Quando os anjos falam", com Vanessa Redgrave, sobre o poder ilimitado da amizade e do amor. Seria apenas mais um filme emocionante, dos muitos que vi, se eu não tivesse sido tocada de uma maneira tão especial. Trata-se da história de uma senhora (Vanessa Redgrave) que mora só e cujo filho morreu na guerra e de um garoto que não consegue superar a morte da mãe. A partir desse encontro, os dois constróem uma linda amizade que trará lições de vida preciosas para ambos. Você poderá até interpretar o filme pelo lado espiritual, mas eu, depois de tantos anos de análise, limito-me a falar sobre o ângulo psicológico, que consigo entender um pouco mais.
A certa altura, ouve-se a voz da mãe morta do menino: "James... Não lamente. Estou perto de você... Os laços de amor continuam. Sempre estarei com você." Caí em prantos e, de repente, percebi a importância dos laços que construímos na vida, sejam eles de amizade ou de amor, e que fazem toda a diferença. Em alguns segundos, vieram até mim, como um suave exército de imagens, todos os que já partiram. Fechei os olhos e senti nitidamente cada uma dessas presenças. Não, não era uma sensação de tristeza, de jeito algum. Era um sentimento que me acolhia, me guardava, me preenchia. Eram os laços que fiz durante a vida, ali, impecáveis. E, então, percebi que sem esses laços, que hoje amarram meu coração, eu nada seria. E que são eles que me tornam a mulher que sou, e que, curiosamente, quanto mais distantes de mim, mais fortes se tornam. Ando sensível como jamais estive. Deve ser a virada do ano. E, provavelmente por conta disso, lembrei-me de acessar no YouTube um filme que, há algumas semanas, uma amiga recomendava que eu assistisse. Chama-se "Laços", de Flavia Lacerda. São pouco mais de seis minutos que contam a comovente história do encontro, no meio da rua, de uma garota cujo pai acabou de morrer e um garoto misterioso. Ele insiste que a moça dê um laço em sua gravata, mas ela não quer. Ele continua insistindo, até que a jovem pergunta se, depois de dar o laço, ele a deixará em paz. Ele responde que só se for um laço bem bonito. Ela concorda, abre a guarda e, a certo momento, ouve do jovem misterioso o seguinte comentário: "Eu prefiro os laços firmes, aqueles mais difíceis de se fazer e de se desfazer, mas que, quando feitos e depois desfeitos, podem se orgulhar de si próprios e falar com convicção: eu fui um grande laço."
Não vou contar o fim do filme, só sei que chorei novamente igual manteiga-derretida. Tenho certeza de que não aluguei "Quando os anjos falam" nem acessei "Laços" no YouTube por acaso. Ah, esqueci de dizer que, depois disso tudo, decidi não ir a festa alguma de ano novo. Quero ficar com os meus laços e, com eles, assistir, da minha varanda, o espocar dos fogos cruzando o céu. Quero acarinhar meus laços mais um pouco, no silêncio da minha casa, e afrouxar seus nós, para que eles se tornem ainda mais vigorosos. Porque os laços, acreditem, quanto mais livres mais consistentes serão. E quero, principalmente, não esquecer que estar acompanhada de muita gente necessariamente não nos faz ter companhia.
Que o novo ano sirva para que fiquemos mais perto do que somos verdadeiramente. Se conseguirmos isso, 2007 já terá valido a pena. Feliz 2008!
Escrita por Bety Orsini e publicada no Globo Niterói do dia 29/12/2007
Escrito por Bety em 06/01/2008