CONSULTÓRIO SENTIMENTAL
Bety, boa tarde! Estou muito triste, fiz 35 anos recentemente e estou com um homem de 45 anos há 2 anos e meio. Ele é casado mas nunca se decidiu por ficar comigo. Diz que me ama muito e que não suporta o fato de eu ter dado uns beijos em um colega de profissão estando com ele; mas ele nunca dedicou tempo nenhum para mim neste tempo todo que ficamos juntos. Só saímos no máximo 3 vezes. me senti sozinha e diferente das outras pessoas; ele não aceita essa traição. Atualmente estamos terminados mas não estou agüentando de saudades dele. Sinto falta do pouco que me oferecia. Estou profundamente triste e desesperada e não estou aceitando tamanha rejeição. o que devo fazer? Me ajuda; estou aguardando retorno seu. Kelly
RESPOSTA: Querida Kelly, fiquei comovida quando você disse que sente falta do pouco que esse rapaz te oferecia. Sabe amiga, quando a gente sente falta de tão pouco é que achamos que merecemos muito pouco mesmo. E assim a única maneira que encontro para te ajudar é recomendando que procure um psicólogo ou um grupo de auto ajuda para levantar sua auto estima que está tão debilitada. Um homem com quem estamos há dois anos e meio e com quem só saímos, como você diz, no máximo 3 vezes, não é um namorado, um amante, nem mesmo um ficante. É alguma coisa tão esporádica que não pode ser chamada de relação. Que bom que você beijou seu amigo, que bom que sentiu seu corpo vibrar naquele instante. Que bom que, naquele momento pelo menos, percebeu que merece muito mais. Procure ajuda o mais rápido possível para não cair novamente nessa armadilha que não vai te levar a nada. Esse homem é egoísta e perverso e você não merece conviver com uma pessoa assim. Se ele não é perverso é doente e você não pode escolher uma companhia assim para sua vida. Desculpe se estou sendo dura mas encarar a realidade sempre é nossa maior libertação. Liberte-se dessa relação doentia e procure outros caminhos. Você merece. Carinho, Bety
Escrito por Bety em 17/12/2007
FALE COMIGO
A partir de hoje, você pode falar comigo pelo celular 9382-2643 (das 14 às 18 horas) e participar do meu quadro CONSULTÓRIO SENTIMENTAL no Programa Tarde Legal, com David Rangel. É só ligar, falar com a Jane, e eu ligo de volta. Eu vou ajudar você a resolver seus problemas. Conte comigo. Bety Orsini
Escrito por Bety em 17/12/2007
RECADO DA BETY
Agora vocês já podem ouvir minhas crônicas interpretadas por mim. Amei a experiência. Acabo de lançar um audiolivro duplo chamado Crônicas do coração pelo selo Luz da Cidade. São 24 crônicas sobre os mais diversos tipos de amor, todas elas vivenciadas por mim. Espero que gostem. O audiolivro pode ser comprado na livraria da Travessa, na Livraria Unibanco Arteplex (Praia de Botafogo 316) ou pela internet no endereço www.luzdacidade.com.br. Para ouví-las basta colocar no rádio do carro, no computador ou no DVD
Escrito por Bety em 18/12/2007
CRÔNICA
Diga ao povo que Tico
Há algum tempo, o neto de um amigo ganhou de presente uma calopsita. O que ninguém tinha noção na família era que o passarinho seria capaz de mudar a vida de todo mundo. Com sua cor amarelo desmaiado, o penacho encantador e duas manchinhas vermelhas igual a rouge nas bochechas, Tico rapidamente despertou os melhores sentimentos de cada um dos moradores da casa. Amoroso, inteligente e encantadoramente feliz, o pássaro, originário da Austrália, é a alegria do iluminado apartamento com varanda na Rua Geraldo Martins. Ter uma calopsita em casa está na moda há alguns anos. E, apesar de os avós de Tico não terem conhecido a liberdade, muito menos seus pais, sua parentada convive com a gaiola na maior tranqüilidade. Famílias inteiras estão procriando engaioladas sem perder a alegria, o que comprova, mais uma vez, que felicidade e liberdade habitam mesmo dentro de nós.
Mas, ainda bem, Tico e seus amigos alados conservam as características básicas dos pássaros: o poder de voar e cantar e o instinto de busca da liberdade, seja ela dentro ou fora da gaiola. Por causa disso, você pode deixar Tico preso dias, mas, quando a gaiola é aberta, ele começa a voar para tudo quanto é canto. Desde que ele foi morar na casa de meu amigo, sua mulher, a filha e o neto andam fazendo uma ginástica extra. E, apesar da overdose de alegria que o alado morador traz para todos, a família desenvolveu uma espécie de paranóia: "E se o Tico fugir?" Certas vezes, instaura-se um luto temporário no apartamento quando, de repente, percebe-se um silêncio total pairando pela casa. "Cadê o Tico?" Nessas horas, a família toda sai em busca dele pelos telhados vizinhos, portas são abertas, armários examinados, espaços atrás de móveis e sofás, vasculhados. Quando o pânico aperta, meu amigo assovia igual ao matitaperê, e Tico responde imediatamente com um canto idêntico. É infalível. Semana passada, Tico sumiu e, diante de um desses assovios, seu penacho amarelo foi surgindo, ressabiado, atrás do livro "Como enlouquecer uma família sem fazer força".
Meu amigo, que gosta de escrever e pintar, de tanta paixão por Tico, estava quase adoecendo. O pássaro, que se apaixonou perdidamente por ele, brindando-o a toda hora com arrulhos ao pé do ouvido, carinhos na cabeça, gemidos sufocados e roça bico no pescoço, começou a fazer cocô nos livros e nas molduras dos quadros, passar as garras nas telas, roer o pé da mesa e de todas as coisas mais molinhas que encontrava pela frente. "Vai voar!", é o bordão mais pronunciado no antes pacato apartamento da Geraldo Martins. A essa altura, os quadros de meu amigo já tinham se transformado em artísticos poleiros e ele, amante das matas e dos animais, não aceitou quando sugeriram que cortassem temporariamente as asas de Tico. E por causa disso, foi parar no divã do analista com uma questão: percebeu que quanto mais gostava de Tico, mais se preocupava com a liberdade do pássaro e não conseguia lhe dar limites. A casa virou uma loucura. A filha mais velha começou a desenvolver uma doença esquisitíssima: a síndrome do suicídio de Tico. Por causa disso, quando ouvia barulho de janela ou porta aberta, saia correndo aos berros: "Vocês ficam enchendo o saco do bicho, ele vai acabar se suicidando!", gritava a moça que, agora, não pode ver um sanitário destampado porque, segundo ela, é possível que Tico, num de seus descansos de vôo, pouse na borda do vaso, escorregue e morra afogado. A empregada vive trancada com medo que o suave morador alado caia dentro de uma panela fervendo e vire ensopado. Agora, com esse calor escaldante, a paranóia aumentou: a qualquer descuido Tico pode ser triturado pelas pás do ventilador.
Meu amigo acabou se sentindo enclausurado. "A liberdade de Tico virou a minha prisão", disse, lembrando que a calopsita sempre se apaixona por alguém da família e, modestamente, escolheu ele, um calvo sessentão, como seu objeto de desejo. "Geralmente, ela se apaixona pela pessoa que ensina coisas para ela", disse, todo orgulhoso, contando que ensinou a Tico o canto de vários pássaros como o inhambu, o melro e o matitaperê. Mas admitiu que, mesmo talentosíssimo, Tico não conseguiu aprender por nada neste mundo o canto do bem-te-vi, o que não abalou em nada a paixão entre os dois. Por isso, ele nem reclamou quando o pássaro transformou sua careca sexagenária em aeroporto, o que acabou resultando em sua moderníssima coleção de bonés anticalopsita.
Ele vive contando as proezas de Tico. Diz que o pássaro é tão vaidoso que passa horas e horas se olhando num espelho da casa e, como um Narciso, entoando como um louco seus trinados mais bonitos para a própria imagem, como se sofresse de uma paixão sem remédio. Ah, o amor faz mesmo milagres.
"Ou vocês cortam a asa dele ou eu ficarei com as minhas cortadas para sempre", desabafou. Cortaram. Os quadros voltaram para as paredes, as janelas se abriram, os lápis e os pincéis de desenho e pintura carregados em vôos rasantes no bico de Tico não despencam mais do teto no chão e a família continua tão apaixonada por Tico que já decidiu: quando as asas crescerem não serão mais cortadas. A tal ponto que seu legítimo dono, Breno Ferreira, de 12 anos, neto de meu amigo, ficou ameaçado quando soube que um marido deu um ultimato para a mulher que amava bichos: "Ou eu ou os bichos". Acabou sozinho porque a mulher preferiu os bichos. "Vô, disse o menino, eu já li que as calopsitas duram 40, 50 anos. Será que o Tico vai durar esse tempo todo?" E diante do sim de meu amigo, o garoto saiu-se com esta. "Quando eu me casar, se a mulher não gostar de bicho e falar pra mim ou eu o Tico, vou dizer: fica o Tico."
Escrito por Bety em 18/12/2007
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Escrito por Bety em 18/12/2007