05/12/2007

FRASE

Amanhã pode chover, assim eu seguirei o sol (The Beatles)

Escrito por Bety em 05/12/2007

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  07/12/2007

CRÔNICA


Um, dois, três e já!


Sexta-feira, bem cedinho, peguei o carro e fui até Várzea das Moças esvaziar a casa onde morei durante tantos anos e onde, atualmente, passava finais de semana. Tinha acabado de vendê-la e, desde o instante em que minha mão assinou o sinal do negócio, comecei a me sentir esquisita. No dia seguinte, lá estava eu, abrindo e fechando portas possuída por um estranho aperto no peito, quando percebi que estava me despedindo da casa construída com o afeto discreto de meu irmão. E então me dei conta de que alguns sentires só se manifestam quando vivenciados pela sabedoria do tempo. A cada objeto guardado, fui percebendo que, quando compramos uma casa, temos a falsa impressão de que a possuímos, como senhores absolutos de seus espaços, mas que ao vendê-la tudo se inverte. A casa passa a nos possuir por meio das histórias que vivem dentro de nós, e corremos o risco de nos tornarmos eternamente escravizados por seus espaços.

Olhando para o cômodo vazio que já foi meu quarto, ainda sinto o cheiro do amor que tantas vezes me transformou na mulher mais feliz do mundo. No outro, me vejo cobrindo meu filho, ainda pequeno, com a colcha grossa para espantar o frio do inverno. A cozinha está povoada de amigos em almoços alegres e, na varanda, ainda balançam as redes imaginárias que tantas vezes embalaram minha preguiça e meus sonhos. E a lua que banhava todo o jardim? E as Três Marias que piscavam só para mim nos dias de festa no céu?

Ah, por que não senti com essa intensidade naquele tempo? Por que tudo o que vivi ali sempre me pareceu tão banal? Agora, no entardecer da minha vida, sei que a culpa é do tempo, que enriquece tudo o que vivemos. Fui até a mesinha de vidro e peguei a caixinha que me foi presenteada por minha amiga Vivian Wyler, que era de sua avó. De prata, em forma ovalada, ela tem um camafeu no centro, é forrada por dentro com veludo salmão já desbotado pelo tempo e guarda hoje o verdadeiro sentimento entre duas amigas. Abri a caixinha e lá estavam, sem que eu tivesse a mínima lembrança, os retratos de meu pai e de Pedro, meu segundo companheiro. Pedro partiu de repente, mas deixou plantado no meu jardim um bico-de-papagaio que, segundo ele, era o símbolo do nosso amor. E dizia, que enquanto a planta estivesse ali, aquele sentimento sobreviveria. Pedro gostava de futucar a terra, colocar pedacinhos de casca de ovos picados para que a planta ficasse mais forte e nosso amor sobrevivesse. Quando ele bebia além da conta, mamãe, brincando, costumava ameaçá-lo: "Pedro, acho que esse bico-de-papagaio está morrendo". E ele, inocentemente temeroso, respondia: "Dona Amélia, a senhora está louca! Ele não vai morrer nunca". Pensei em replantar o bico-de-papagaio e trazê-lo para casa, mas mamãe alertou: "Elizabeth, não faça isso. Ele vai morrer." E, temerosa, deixei-o quieto no canto do jardim com suas flores vermelhas, cor de sangue, me acenando com sua eternidade amorosa.

Deus, o que está aqui agora, além do passado, que eu não vejo e não sinto? Responda, mundo, me responda para que eu também não perca a beleza desse momento mágico. E, imediatamente, percebi que o tempo deu passagem à mudança. E logo enxerguei-a, vigorosa, na imagem de meu filho que, em poucos meses, com o dinheiro da venda da casa, já estará morando perto de mim; antecipei meu neto correndo de braços abertos até meu apartamento; e imaginei meus passos mais claudicantes, daqui a alguns anos, caminhando da Rua Miguel Couto até a Herotides de Oliveira em busca do aconchego da família. Sentada na varanda do meu apartamento, olhando o chafariz iluminado do Campo de São Bento, imaginei-me, então, pura energia, vagando pelo jardim de Várzea com um camisolão igual ao dos fantasmas e longos cabelos brancos levantados pelo vento frio da serrinha.

Os mais racionais apostam que essa revolução de sentires pode ser culpa dos hormônios, mas não acredito. Acho que a culpa é mesmo desse meu jeito exagerado. E foi por causa dele que, em pé no jardim, chorei novamente. Fechei o portão, olhei para o alto e me deu um aperto no peito ao ver o ipê-rosa plantado há tantos anos por mamãe, quando comprei o terreno, exibindo suas flores para mim num suave adeus. E pela primeira vez toquei o tempo. De repente ele estava ali, carpindo a dor das coisas que não voltam mais. Virei de costas, entrei no carro e fui embora sem olhar para trás. Aprendi com mamãe que tem que ser assim. Quando eu era pequena e meus dentinhos-de-leite ficavam moles, prestes a cair, ela amarrava a ponta da linha num deles, a outra na maçaneta da porta, mandava eu fechar os olhos e dizia: "Elizabeth, minha filha, não olha para trás". Meu corpo se retesava, num misto de medo e ansiedade, e eu a ouvia dizer: "Um, dois, três e já!" Então ela vinha a meu encontro, colocava o dente ainda com um pouco de sangue na palma da minha mão e dizia, carinhosa: "Agora vamos fazer um pingente para colocar no colar".

Escrito por Bety em 07/12/2007

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  09/12/2007

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL
Oi Bety Orsini, como vai?
Gostaria muito de um conselho seu. Ouço quase todos os dias do trabalho o programa do David Rangel (que eu adoro) e gosto muito das suas participações. Então tomei coragem para te pedir esse conselho. A minha situação é assim: sou casada há 17 anos e tenho um filho de 10. Moramos na mesma casa mas há 8 anos não temos mais relações sexuais e nem diálogo com meu marido. Durmo no quarto com meu filho e mal falo com o pai dele. Mas ele mora na minha casa e não tem intenção de sair. Há 19 anos namorei um rapaz que mora em São Paulo e quase casamos, mas por causa do pai do meu filho eu terminei o noivado com o paulista que é maranhense mas mora em São Paulo. Ele hoje tem 2 filhos e está separado da mulher, separado mesmo. Já conversei com os filhos e com a ex-mulher e ele diz que se eu quiser ele vem morar aqui ou eu vou morar lá na casa dele. Ele afirma que quer ficar comigo. Ele trabalha com políticos e quando entro no orkut dele sempre tem muitos recados de mulheres, o que me irrita. Ele diz que não tem nada haver, mas me irrita. Me sinto perdida, nem resolvi a situação em casa e tenho medo de entrar numa furada com o paulista. Também tenho medo de que o pai do meu filho tome alguma atitude mas necessito viver. E o paulista me diz coisas lindas. Ele diz que me ama o tempo todo, mas não estou lá em São Paulo e não sei se está saindo com outra mulher. Aguardo um conselho seu, bjs Valeria




RESPOSTA: Querida amiga, a frase mais importante do seu e-mail é essa: “NECESSITO VIVER”. Atualmente Valéria, você vive ao lado de um homem que não te ama e nem te respeita. E nem você a ele. São dois estranhos vivendo na mesma casa e você querida, não merece viver assim para sempre. Agora aparece uma chance e você está com medo. Medo de perder exatamente o que? Pense nisso. Só acho que você não tem que casar e morar junto com esse ex-imediatamente. Que tal namorar um pouco, conhecer mais de perto os defeitos e as qualidades desse ex? As pessoas mudam e certamente o rapaz que você namorou naquela época não é o mesmo que você vai encontrar hoje. Dê um passo de cada vez mas, não esqueça: viva, querida, viva intensamente o que a vida está te oferecendo. Se ele recebe recados no orkut ou está saindo com uma mulher atualmente não vejo problema. Vocês não estão namorando nem têm ainda nenhum compromisso, estão apenas se correspondendo. Vá em frente mas não se esqueça de uma coisa. Um homem pode ser um motivo de alegria, pode nos trazer muitas coisas boas, mas a nossa felicidade depende de nós, dos caminhos que tomarmos e de tudo o que fizermos por nós mesmas. Faça por onde se orgulhar de você que seu caminho será muito mais suave. Escreva quando precisar. Carinho, Bety


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Escrito por Bety em 09/12/2007

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