31/10/2007

FRASE DO DIA:

A pessoa satisfeita é feliz mesmo quando pobre; a pessoa insatisfeita mesmo rica é triste.
(Provérbio chinês)


Escrito por Bety em 31/10/2007

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TODOS OS MENINOS VÃO PARA O CÉU

Por Bety Orsini

Há pessoas que nos tornam melhores. O poeta e tradutor Marco Lucchesi é uma delas. Nos conhecemos durante uma entrevista, em meados dos anos 90, em seu apartamento de Icaraí, com janelões de frente para o mar. Ali fui apresentada a seu pai, o senhor Egídio, que trocou a Itália pelo Brasil, no início dos anos 50, para trabalhar com o todo-poderoso Assis Chateaubriand. Fiquei encantada com Marco. Não só pela cultura incomum daquele jovem de pele alvíssima, mas também pela delicadeza de suas palavras e de seus gestos. Lembro-me, saudosa, daquela tarde preguiçosa de domingo. Ele falou sobre tantas coisas... De sua amizade com Nise da Silveira, que chegou por meio do amor de ambos pelos gatos; da sua veia de viajante; dos estudos no Colégio Salesianos; e do amor pelo poeta persa Rûmi. Naquela tarde, Marco se sentou ao piano e tocou a música que compôs para "A ilha do dia anterior", de Umberto Eco, do qual foi o tradutor brasileiro. Minutos depois, entrou na cozinha e voltou com um prato de madeleines proustianas acompanhadas de um suave licor feito por monges beneditinos.

Na última quarta-feira, Marco lançou dois novos livros: "A memória de Ulisses" e "Meridiano celeste & bestiário". Conversamos sobre eles olhando o mar azul de Itacoatiara, onde o poeta comprou uma casa para fugir do burburinho da cidade. Marco louvou a maresia que o "encanta e confunde" e contou que a sonatina dos passarinhos madrugadores o leva sempre a pensar no Brasil antes das caravelas. "Meridiano" é um volume com dois livros que formam um todo. Niterói está dentro dele. "Não só Niterói, mas também Niterói: como sempre, Itacoatiara, mas também o Gragoatá e a Baía de Guanabara... E mesmo que Niterói não apareça mais, ela está invisível nestas páginas, onde o poeta se abandona aos veios límpidos da noite, às novas, e às vezes ásperas mas sempre luminosas, experiências do homem".

Trata-se de um livro em que o autor celebra uma paz prolongada dentro de si mesmo, no qual o estado de guerra constante do poeta se perde em novas buscas. Surgem ainda das páginas desse "Meridiano" as figuras de Antonio Carlos Villaça e Nise da Silveira, as leituras de Marco, que completa 43 anos mês que vem, e os homens simples do Brasil e do mundo. É um trabalho demasiadamente humano e, por conta disso, o autor diz que precisou falar dos animais: a formiga, a pulga, o leão, a jararaca, o cavalo, o elefante. Contam os árabes que, na Lua nova, os elefantes vão em bando se lavar com suas trombas na beira dos rios e, depois de lavados, se põem de joelhos, como adorando a Lua. No fim da cerimônia, tornam a se embrenhar na mata. "Meridiano" fala de coisas fortes e amorosas, como no poema "Santa Cruz", dedicado à amada Constança Hertz, que, suavemente, roubou o coração do poeta: "Constança foi ao céu me visitar/ seu vestido era verde/como as pedras de Itacoatiara/ Trazia nos olhos/um canarinho/um buquê de flores/ e os seios de minha mãe/ soprou em meus pulmões/como quem salva um afogado".

Em "Memória de Ulissses", Marco explicita seu amor insano pela leitura. Lê com disciplina, desespero, voracidade e amor desde os 12 anos. Adorava ler perto da Igrejinha da Boa Viagem. "Quanta saudade da Niterói de antes...", desabafa. Professor, com vários livros publicados, muitos prêmios e poemas em antologias de vários países, ele se autodefine com humor: "Marco Lucchesi é o nome de uma nuvem/água pluriforme/ligeira/e imperscrutável/que se desmancha/na medida/em que se mostra".

Em "Meridiano" ele também resgata a infância e lamenta ser tão fácil perder, com o passar dos anos, o lastro desses tempos de ouro. "A infância que me resgata. A de todos. O Céu de todos os meninos. É preciso não perder algum fragmento desse horizonte. Como quem não perde não tanto os deuses mas as montanhas em que se escondam".

(publicado em: O Globo - Jornais de Bairro - Niterói em: 11/11/06)

Escrito por Bety em 31/10/2007

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