A LUZ QUE NOS PROTEGE
Outro dia, caminhando bem cedo no calçadão de São Francisco, me surpreendi com uma luz deslumbrante cobrindo toda a cidade. Sentei num banco para observar seu efeito no mar, na areia e nas janelas dos prédios que ainda dormiam, e foi inevitável comparar tanta beleza com o mundo de sombras em que vivemos atualmente. Estava ali, pensativa, quando encontrei César Coelho Gomes, da grife Swains, também hipnotizado por essa luz. César, que também é pintor, carregava na mão uma caixinha delicada como se fosse um tesouro. Perguntei o que era. "É a minha manchinha", respondeu. E explicou que era o apelido da pequena caixa de madeira, comprada em Florença há mais de 20 anos, da qual nunca se separa. Quando a tampa da manchinha é aberta, salta dela uma pequena bandeja lateral, com um orifício para enfiar os dedos, igual ao das paletas de pintura tradicionais. Na tampa ficam duas ranhuras de onde surgem duas tabuinhas para César pintar. Assim, quando a caixinha é fechada, o instante retratado permanece intacto, sem perigo de borrar.
Mas que instantes são esses que nosso embaixador da moda retrata incessantemente? São impressões dos momentos que surgem e desaparecem rapidamente diante dos nossos olhos. Pode ser uma luz batendo na pedra, talvez na areia, instantes fugidios captados pelo olhar do artista e guardados para sempre em sua memória. César conta que Niterói tem a fama de ser uma das cidades do Brasil que têm a luz mais bonita e que, por conta disso, ganhou a tradição de pintura plenarista, aquela que vem diretamente da paisagem.
Tudo começou com Georg Grimm, pintor bávaro que desembarcou no Brasil no século XIX e veio morar na cidade, mais precisamente na Boa Viagem, cujos rochedos pintou exaustivamente. Desde essa época, a cidade ficou conhecida por essa luz especial, vital para a alma do artista. Os primeiros quadros do holandês Van Gogh eram escuros e sombrios, mas ele rodou, rodou, até chegar ao Sul da França, onde encontrou a luminosidade que tanto procurava. O francês Gauguin encontrou a sua no Taiti, enquanto Monet preferiu a da Normandia, onde pintou incansavelmente. César, nosso caçador de instantes iluminados, ama pintar os rochedos da Boa Viagem. Antigamente, gostava de acompanhar Roberto Paragó: pintavam na Ilha da Conceição e, depois, comiam um bacalhau no De Colores, na Ponta D'Areia. "Parecia que estávamos na Provence", conta, saudoso. E lamenta a violência que afastou muitos pintores de locais paradisíacos, onde a exuberância de verdes, próxima ao azul do mar, altera a qualidade da luz, que muda constantemente. César não se cansa de observá-la. "Nesta época, ela fica mais filtrada, ressalta a cor da natureza, é maravilhosa. No alto verão, é tão intensa que satura todas as coisas. Fica tudo meio chapado, quase que esbranquiçado de tanta intensidade."
A luz do céu é a salvação do homem e, por isso, os egípcios mandavam costurar sobre sua mortalha um amuleto que simbolizava o Sol. Luz do Sol. Luz do mar. Luz da Lua. À luz do teu sorriso. A que ilumina Hermila Guedes em "O céu de Suely", de Karim Aïnouz. A que esquenta o Saara de "O céu que nos protege", de Bertolucci, baseado no romance autobiográfico de Paul Bowles. E tem mais luz em "Estrela da manhã", do Roupa Nova ("Me dê a luz dos olhos teus/Queira desculpar se for pedir demais"). E em "Luz do Sol", de Caetano Veloso ("Luz do sol/Que a folha traga e traduz/Em verde de novo/Em folha, em graça, em vida em força, em luz"). Meu Deus, para que tanta luz, se ela morre todos os dias? Para que ela possa renascer toda manhã, e para que o homem se reconheça no seu reflexo, perceba o seu destino e recomece a cada dia. E que receba dela uma nova esperança de vida.
(publicado em: O Globo – jornais de bairro: Niterói – 16/10/06)
Escrito por Bety em 16/10/2007
FRASE DO DIA:
Nem palavras duras e olhares severos devem afugentar quem ama; as rosas têm espinhos e, no entanto, colhem-se.
(William Shakespeare)
Escrito por Bety em 17/10/2007
FRASE DO DIA:
Uma alegria espanta mil preocupações.
(Provérbio japonês)
Escrito por Bety em 19/10/2007
FRASE DO DIA:
Toma para ti o conselho que dá aos outros.
(Tales de Mileto)
Escrito por Bety em 21/10/2007
SOLTARAM A FRANGA, MARYLOU
Por Bety Orsini
Segunda-feira pela manhã pego o carro e fico parada um tempão na Roberto Silveira. Irritada, logo concluo: congestionamento de novo na Ponte Rio-Niterói. Para passar o tempo coloco um CD do Ultraje a Rigor que toca o rock "Marylou": "Eu tinha uma galinha que se chamava Marylou/Um dia fiquei com fome e papei a Marylou". Quando consigo passar, não vejo nada. Mistério total. Ao chegar no jornal descubro o motivo: uma galinha, imediatamente apelidada de Marylou, estava passeando na Ponte Rio/Niterói, lépida e fagueira, impedindo a movimentação dos carros. Minha amiga e leitora Dalva Lutterbach, que também estava em trânsito, chegou a ver a bichinha que, segundo ela, estava desesperada, sem rumo, balançando o rabinho, nervosa, de um lado para o outro. "Coitada, tão indefesa, parecia que fugia de alguma coisa. Morri de pena,
Bety".
Um psicólogo de frangos, que também estava no congestionamento, garantiu que a coitada encontrava-se em pleno surto paranóico. Achava que estava sendo perseguida pelo caminhão do McDonald's e morria de medo de virar McChicken. Até agora ninguém sabe o paradeiro de Marylou, que desfilava, atordoada, com sua crista carnuda.
A Polícia Rodoviária Federal acredita que, assustada com a movimentação intensa de veículos, Marylou tenha se jogado da ponte. Outras testemunhas juram que a coitada se atirou do vão central, inconformada com a maldade de alguns motoristas mal-educados que gritavam "galinha, galinha", numa alusão chula ao outro significado do seu nome. Marylou ficou arrasada com os ataques totalmente sem propósito já que sempre foi galinha de um galo só.
Foi inevitável pensar no sucesso dessa fêmea adulta do galo, figurinha fácil no planeta, que serve de inspiração para tantos criadores. A museóloga Kely Cristina Morais, por exemplo, sabe tudo sobre filmes trash inspirados em galinhas. Diz que adora um italiano tétrico chamado "Chicken Park", uma espécie de versão fuleira de "Jurassic Park" com galinhas gigantes em vez de dinossauros. E também é encantada por Giselda, a galinha de estimação do Chico Bento que, volta e meia, escapa de virar canja ou almoço de raposa graças à proteção de seu dono.
Em 96, a galinha já tinha sido musa absoluta no concurso Phytoervas Fashion, quando o estilista Ronaldo Fraga mostrou roupas inspiradas na ave, e a União da Ilha do Governador homenageou a penosa em seu enredo "A galinha-d'angola: uma iniciação à cultura afro-americana". Dalva Lutterbach garantiu que a atarantada bichinha que rodopiava na ponte era uma legítima d'angola. Aquela mesma que na mitologia grega foi criada pela deusa Ártemis. Penalizada pelo choro incessante das irmãs de um herói de pouca sorte, a deusa transformou as moças em aves negras com manto de luto, salpicadas pelo branco das lágrimas, para que assim elas pudessem estar sempre sobrevoando o túmulo do irmão.
Melhor mesmo só o conto "A galinha", do livro "Achei que meu pai fosse Deus", de Paul Auster. Convidado a fazer um programa mensal numa rede de emissoras públicas de rádio dos Estados Unidos, o escritor pediu aos ouvintes que mandassem suas histórias incríveis para serem lidas no ar. A da galinha foi contada por uma ouvinte de Portland, Oregon. Linda Elegant diz que, certa manhã de domingo, caminhava pela Rua Stanton, quando viu uma galinha. Como o bicho andava mais rapidamente do que ela, Linda foi se aproximando gradualmente e pouco antes da 18ª Avenida, já estava bem perto do bicho. Ela contou que a galinha entrou na quarta casa da 18ª Avenida, subiu aos pulos a escada da frente, bateu com o bico na porta de metal e, depois de alguns instantes, a porta se abriu e a galinha entrou. Trocando em miúdos: de uma galinha pode-se esperar tudo. Ou quase tudo.
(publicado em: O Globo – Jornais de Bairro: Niterói – 10/03/07)
Escrito por Bety em 22/10/2007