CARTA DE UMA MOÇA GORDINHA A UM HOMEM DE ALMA GORDA
Por Bety Orsini
Segunda-feira de manhã: depois de uma boa caminhada no calçadão da Praia de Icaraí, sento-me num banco do Campo de São Bento para espantar o frio. Ao meu lado, pensativa, a moça cheinha, cabelos avermelhados, pouco mais de 20 anos, puxou conversa. Você não é a Bety Orsini, do programa "Amigas invisíveis", da Rádio Globo? Também, respondi. Daí em diante, a conversa tomou ares de confidência. Com algumas doses de fantasia, transformo as palavras delicadas da moça na crônica, que batizei de "Carta de uma moça gordinha a um homem magro de alma gorda".
As palavras sempre foram importantes para mim. Por isso, não posso deixar de usá-las para falar do nosso encontro. Admito que fiz força para adiá-lo, com medo de que a realidade colocasse um ponto final naquela intensidade que enfeitava minhas tardes ao computador. Eu chegava correndo da rua, à noite, quase enlouquecida, para ver se encontrava O TODO PODEROSO on-line. Minha mãe, da cozinha, sempre gritava: "Minha filha, você está uma louca nessa máquina”.
E que adorável loucura havia naquela troca de bobagens, algumas seriedades e outras tantas sexualidades. Você ama sua menininha, titio? Coloca minha camisola de ursinhos? Ninguém pode saber, é um segredo só nosso, titio. Você correspondia com igual intensidade. Além disso, atrás da tela eu sentia atração, afeto, cumplicidade e me perguntava o tempo todo: de onde estará vindo tudo isso, meu Deus? Por mais que eu soubesse, freudianamente falando, que era a minha fantasia que estava atrás da tela, sentia algo mágico no ar.
O encontro foi marcado e tive pavor quando a chuva começou a desabar no Centro da cidade. O que seria do meu cabelo by Chris Mozer, do Instituto de Beleza Revlon, naquele temporal? Será que você perceberia alguma sensualidade no meu decote sempre aprofundado pela tesoura incrível do ateliê da craque Gilda Moreira de Souza, em Icaraí? Será que aprovaria o meu colar de tafetá azul-tristeza com duas românticas rosas nas pontas? Você chegou. Fiquei sem graça, ambos ficamos um pouco sem graça. E descemos a rua de braços dados para caber no seu guarda-chuva. Ali estava a vida, mais uma vez, estendendo seu tapete para nós. No restaurante Torninha, ali na Rua Nóbrega, nos sondamos, nos farejamos como dois animais domésticos sem clima de guerra. Você comentou sobre meu palmito fresco. Depois, fez piada com a pimenta colorida que se exibia no seu prato. E, numa tentativa de aproximação, fez questão que eu provasse um pouco do seu gateau de maracujá. Pegamos nossas taças de vinho e brindamos o indefectível tim-tim. De repente, você pediu licença para ir ao banheiro. Eu, temerosa de que um pipi urgente também me chamasse, decidi ir atrás. E foi por puro acaso que ouvi você, no banheiro em frente, telefonando para alguém. A certo momento você disse: é uma gata. Será que a gata seria eu? Ou seria outra que você encontrara pela manhã? Ou seria uma aposta feita entre dois homens diante da fragilidade de uma mulher?
Tentei afastar os pensamentos, é sempre assim que eu faço quando me sinto ameaçada. Gostei das suas graças, das suas insinuações educadas e, pela primeira vez na vida, estava disposta a fazer uma coisa que nunca fiz: ir para a cama com um homem que conheci há pouco mais de duas horas. Pensava: vou ou não vou? Um lado queria ir, outro queria ficar. Até que a vida nos facilitou as coisas. Minha mãe telefonou recomendando que eu não voltasse para casa porque as ruas estavam sem luz. Você sugeria, em tom de brincadeira, que eu ficasse. E acabei dizendo sim. Não tanto para fugir do temporal, mas para sentir a sua presença por inteiro.
Enfim, menininha e titio estavam frente a frente num quarto do motel Le Baron. Aliás, ela manda pedir desculpas. Não ficou muito à vontade com o titio, ficou um pouco constrangida pelo fato de ser uma menininha gordinha. Ela diz que só perde a vergonha com o passar do tempo. Não repare, as menininhas são assim mesmo. Tiranas muitas vezes, frágeis outras. Mas são sempre reparadeiras. A menininha diz que reparou que o titio coloca os sapatos bem arrumadinhos, um ao lado do outro, como se fosse possível arrumar a vida dessa maneira. Apesar da pouca idade, ela já sabe, como toda menininha esperta, que isso não é possível, e que a vida nos surpreende a cada momento. Ela gostaria de ensinar isso ao titio. E também gostaria de dizer a ele que não fique cansado dessa vida, como ele disse que está. A menininha tem intuições. E uma delas é a de que se aproximam coisas novas na vida do titio. Coisas boas que ela tem certeza que ele merece.
Essa é uma história de uma noite de vida, de uma noite de encontro. A menininha também manda dizer que ninguém pode saber o que acontecerá depois daquela noite de temporal. Se a magia do MSN resistirá ao encontro. Se sobrinha e titio se encontrarão novamente. Era nisso que a menininha estava pensando quando o titio a viu de madrugada, debruçada sobre a janela, olhando o temporal a cair sobre a cidade. Ela estava feliz e ao mesmo tempo triste por perceber, mais uma vez, como a vida pode mudar de um momento para outro. Desde muito menininha ela tinha aprendido isso. Por isso, tentava não se apegar muito às coisas. Deixar apenas que elas acontecessem. Foi muito difícil para ela esse ensinamento, talvez o mais difícil da sua vida. Mas de uma coisa ela estava certa: houve um encontro naquela sexta-feira de temporal. E um encontro entre dois seres humanos é um presente de Deus.
Como faz sempre para se defender, ao se encontrarem, a menininha disparou a contar sua vida inteira para o titio. Queria ficar nua na frente dele para se defender. Contou suas conversas com outros titios, seus encantos, desencantos, contou tudo. Ah, se a mãe da menininha estivesse ali... Ela vivia dizendo que não se deve contar tudo para os homens, que esse é o maior mal das mulheres. Mas não seria o maior bem das mulheres? A menininha não pensou duas vezes. Contou e pronto: o mal estava feito. Ou teria sido o bem? De repente, a menininha lembrou de um casamento budista a que assistira recentemente numa elegante mansão em Itacoatiara. E das palavras do monge comparando o casal de noivos a duas pedras rolando num rio. O monge lembrou que, juntas, as duas ganhavam mais força. Mas que era preciso atenção, que uma pedra não pode interferir no caminho da outra, que elas apenas se encontram e se afastam, se encontram e se afastam... Ela não se esqueceu daquele sermão. Achou tudo tão lindo. E, pela primeira vez, sua cabeça de menininha percebeu o quanto a liberdade é importante.
Olhou para o titio e lembrou que, naquela noite, ele tinha lamentado que todas as mulheres que partiram de sua vida acabaram por odiá-lo. Ela não queria ser mais uma. Já queria bem àquele homem grandão, de muitas palavras, alma gorda e costas curvadas, que deitou com ela naquela noite de temporal. E fez questão de dizer a ele que, acontecesse o que acontecesse, ela sempre traria o titio guardado num cantinho do seu coração.
(publlicado em: O Globo – Jornais de bairro: Niterói – 16/09/2006)

